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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Eis alguns apontamentos sobre o ano de 2010 em relação a séries de televisão. Dispenso o mercado português, apesar de deixar uma menção honrosa para "Noite Sangrenta", da RTP.

Melhores do ano:

Boardwalk Empire (1ª temporada)
Martin Scorsese. Steve Buscemi. Terence Winter (The Sopranos). A história, passada na era da proibição (de bebidas alcoólicas) nos Estados Unidos, é um misto de ficção e eventos (e personagens) reais. Um conjunto de interpretações brilhantes e um set construído de raíz para retratar a romântica e perversa Atlantic City nas décadas de 20 e 30 do século passado. Boardwalk Empire tem tudo para fazer história em televisão. Os mais críticos dizem que mimetiza em demasia os Sopranos. E desde quando é que isso é uma coisa má?

Treme (1ª temporada)
Este foi sem dúvida o ano do ressurgimento das grandes séries no canal HBO, depois da orfandade provocada pelo final dos Sopranos e Sex and The City.
Treme é assinada por David Simon, genial criador de outra grande produção HBO, The Wire, poesia pura e triste à cidade de Baltimore, que durou cinco temporadas.
Tendo como cenário Nova Orleães, um ano após o Katrina, Treme revela a riqueza cultural de uma das cidades mais interessantes dos Estados Unidos, berço do jazz, e os problemas sociais provocados pelo furacão. No elenco estão alguns dos elementos que compunham The Wire, de que destaco Wendell Pierce, numa interpretação magnífica. As audiências não foram as melhores, mas a HBO já tinha comprado uma segunda temporada. Graças a Deus!

Dexter (5ª temporada)
Dexter caminhava para zonas demasiado ambíguas quando a personagem interpretada por Michael C.Hall se casou e teve um filho. Cheguei a temer o cansaço natural de uma produção que já atingiu a maturidade. Mas depois do monumental final da temporada passada, a quinta época só podia dar lugar a uma história com mais Dexter e menos telenovela. Foi o que aconteceu, e alguns dos episódios são dos melhores que já vi em Dexter desde o seu princípio. De destacar também os convidados, Julia Stiles e Johnny Lee Miller. Venha a sexta época!

Blue Bloods (1ª temporada)
Uma agradável surpresa. É mais uma série de polícias em Nova Iorque, sim. Tem imensos clichés, os mesmos procedimentos criminais que já vimos em tantas outras séries. Mas o elenco e a narrativa com qualidade (fechada por episódio, embora com algumas tramas que continuam ao longo da temporada) prometem uma vida longa para uma série que despertou das cinzas o actor Tom Selleck, e deu um papel de relevo a Donnie Wahlberg, irmão de Mark.

The Walking Dead (1ª temporada)
Embora só tenha merecido uns meros 6 episódios na sua temporada de estreia (que nem sequer abarcam o primeiro volume da respectiva banda desenhada em que se baseia), The Walking Dead mostrou logo no seu primeiro episódio que não é um mero "freak show" de mortos-vivos comedores de pessoas. É bem mais complexo que isso, especialmente na caracterização complexa dos sobreviventes. Frank Darabont realizou esse primeiro opus de uma forma magistral. Tão magistral que os seguintes deixaram as pessoas com um pequeno amargo de boca, a salivar por mais. Mas somos pacientes. A AMC já renovou The Walking Dead para mais uma temporada de 13 episódios. Cá estarei para os ver todos e começar a preparar o manual de sobrevivência em caso de apocalipse.


Desilusões do ano:

The Pillars of the Earth (minisérie)
Tinha tudo para ser um dos acontecimentos do ano. É a adaptação de um dos romances mais badalados da década de 90, Os Pilares da Terra, de Ken Follet. Mas o resultado é muito pobrezinho. Não o digo por mérito de ter lido os livros. Não o fiz. Mas basta ver a série para perceber que os argumentistas tentaram a todo o custo acrescentar o máximo possível de acontecimentos de um romance que é gigantesco, e que abarca várias décadas da vida das respectivas personagens. O resultado final é uma caracterização péssima (a passagem dos anos quase nunca se nota), e uma história tão básica e mal amanhada que se parece com um apanhado dos livros a fazer lembrar aqueles cadernos de apoio que os estudantes preguiçosos usam para não terem de ler a obra que o professor mandou. Os eventos seguem de uma forma tão rápida que se torna por vezes difícil entender as escolhas de vida e as emoções das personagens (amor, ódio, inveja...). Se estão interessados em ler o livro (dois, no caso da edição portuguesa), não percam tempo a ver isto. Eu arrependi-me amargamente.
The Event (1ª temporada)
Depois de FlashForward ter sido anunciado com pompa e circunstância como o grande sucessor de Lost, falhou miseravelmente. Em seguida, este The Event foi catalogado na mesma prateleira, mas está prestes a estatelar-se ao comprido. Maus actores, argumento com demasiados altos e baixos e alguma saturação neste tipo de história podem ser apontadas como as razões principais.
Undercovers (1ª temporada)
Uma nova série de JJ Abrams é sempre um acontecimento. Mas este Undercovers revelou-se uma tentativa desesperada de reclamar a herança de Alias. Erro fatal, com uma dupla pouco credível de actores e episódios com histórias patéticas, banais, que fazem Covert Affairs (outra risível série de espiões com Piper Perabo) parecer um Jason Bourne. Um passo atrás na carreira de Abrams, que acabou por ver a série cancelada.
Weeds (5ª temporada)
O que aconteceu com aquela que já foi uma das minhas séries favoritas? Weeds devia ter terminado logo após a terceira temporada, depois de vermos o bairro suburbano de Agrestic arder. A tentativa de continuar a explorar o filão resultou num beco sem saída para a família Botwin. E Andy, a grande personagem explorada de forma irrepreensível pelo actor Justin Kirk, perdeu todo o seu protagonismo. Vai haver uma temporada 6. Valha-me Deus!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sobre o Final de Lost (SPOILERS)...

Tal como imaginei, Lost terminou com uma forte carga religiosa e um sem número de perguntas que toda a gente queria ver respondidas. É óbvio que isso era impossível. No entanto, compreendo as angústias daqueles que passaram seis anos a tentar entender alguma teoria específica (os números "mágicos", as viagens no tempo, quem viveu originalmente na ilha, quem era a mãe de Jacob...) e depois chegaram ao fim com pouco ou nada.
Há que recordar que Lost esteve "à deriva" durante boa parte da temporada 3, e que muitas histórias serviram para "encher chouriços" até os seus criadores conseguirem o afamado contrato com a ABC que lhes permitiu dar um fim digno à série.
Tenho pena que não se chegue a perceber o que é a luz da ilha, e qual a importância desta, mas acho que isso é o mesmo que querer saber se Deus existe (ou como li num forum de fãs, quem nasceu primeiro, a galinha ou o ovo).
É preciso um pouco de fé. E foi a pedir muita fé aos seus fãs que Lindelof e Lieber concretizaram o fim de uma das mais famosas séries da década, e mesmo da história da televisão.
Vou dar um exemplo de todo o burburinho que anda na net: alguns queixam-se que ficámos sem perceber porque raio o irmão de Jacob se tranformou no monstro de fumo, e o mesmo não aconteceu a Desmond ou mesmo a Jack. A minha teoria é de que estes dois eram pessoas especiais, dignas de entrar na luz. Uma (Desmond) pelas suas propriedades electromagnéticas que fomos acompanhando ao longo das últimas temporadas. Jack simplesmente porque foi escolhido por Jacob. Mas é como digo: isto é apenas uma teoria minha, entre dezenas ou centenas que andarão por estes dias a inflamar a internet. E aí é que está o busílis da questão. Lost terminou com muitas coisas em aberto precisamente para que cada um encha os espaços em branco da maneira que mais lhe aprouver. E isso, no meu dicionário, é qualidade. Querem a papinha toda? Vejam a Anatomia de Grey ou o Dr.House e deixem-se de merdas.
Vou ter saudades de Lost... muitas.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Terminei hoje o visionamento da última semana de emissões do The Tonight Show with Conan O'Brien. E que semana! Como um dos convidados disse a determinada altura, dirigindo-se para o ruivo mais famoso da América, "you're on fire!".
Parece que a inevitabilidade do que aí vinha travestiu o Tonight Show de tal forma que as audiências aumentaram quase para o dobro, e a loucura foi de tal forma exponencial que relembrou os bons velhos tempos do Late Night. Regressaram personagens saudosas como o urso masturbador ou o cão Triumph, e as piadas voltaram a ser mais acutilantes e desprovidas de "politicamente correcto" para não ferir as pobres mentes do midwest puritano. Por várias cidades realizaram-se manifestações de apoio a Conan O'Brien, isto para não voltar a falar do movimento pró-Conan cada vez maior que se espalhou pela internet.


O que os executivos da NBC fizeram foi uma amálgama de más decisões, mas a mais grave de todas ainda está para vir. É que Conan O'Brien é o anfitrião por excelência da geração dos 20/30 anos de idade, uma fatia em que tanto Jay Leno como David Letterman pouco terão a dizer. Na minha opinião foi essa a razão principal da descida de audiências do Tonight Show durante o curto reinado de Conan O'Brien. É que muitas dessas pessoas têm actualmente outras formas de ver televisão, ou simplesmente outros media pelos quais seguem os seus programas, noticiários e documentários. A internet democratizou o visionamento de conteúdos de tal forma, que hoje pensar em timeslots publicitários como se fazia há duas décadas devia ser impensável, até mesmo um arcaísmo. Mas não é, como o provaram os inanes senhores que administram aquela que já foi a maior casa televisiva dos Estados Unidos.
Quando Conan O'Brien regressar (e acreditem que ele vai mesmo regressar, seja na FOX ou noutro canal qualquer), será para apostar num talk-show voltado para as audiências do futuro, tal como tentou fazer com o Tonight Show, onde a maturação deveria esperar não uns meros sete meses, mas dois ou três anos, até que os miúdos que agora têm os tais 20 anos de idade comecem a ficar em casa à noite para ver os seus programas, seja através da tradicional transmissão televisiva, ou ainda melhor pelos streamings de vídeo cada vez mais evoluídos e rápidos da internet, e sem o constrangimento das horas.
No ocaso do Tonight Show with Conan O'Brien passou um autêntico desfile da actual geração de comediantes americanos. Por lá estiveram Adam Sandler, Ben Stiller, Ed Helms, Steve Carell (que representou um empregado da NBC fazendo a corriqueira entrevista de saída da empresa ao empregado demissionário) e Will Ferrell, que cantou no último suspiro do programa, acompanhado de uma banda de notáveis, com o próprio Conan na guitarra (!!), Ben Harper, Beck, Billy Gibbons (dos ZZ Top) e toda a banda do Tonight Show, com Max Weinberg na bateria. Eis a despedida de Conan O'Brien, para os mais nostálgicos, com o sentimento de que o famoso "I'll be back" nunca fez tanto sentido como agora.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010


Se há apresentador de talk-shows sem o qual eu não consigo passar é Conan O'Brien. Vejo o programa deste senhor desde 1996, através da velhinha parabólica que o prédio onde vivo mantinha com alguns canais, entre eles a NBC (Europa? Não me recordo...). Ou seja, o Late Night com o Conan tinha naquela época apenas 3 anos de longevidade. E a verdade é que, no princípio, nunca fui grande fã de Conan O'Brien, ao invés de Jay Leno, de quem sempre gostei do approach mais conservador, light e coloquial na stand-up que tradicionalmente inicia este tipo de programas.
Mas a verdade é que O'Brien cresceu muito com o passar dos anos (e Leno envelheceu mal), consolidando um estilo muito próprio de fazer comédia, muitas vezes demasiado física para alguns, ou demasiado estúpida para outros.
Eu diria que é uma comédia "nonsense", ao bom estilo Monty Python. É de um "nonsense" mais fresco, inicialmente voltado para um público mais jovem (que entretanto envelheceu, como é o meu caso), que Conan apostou após uns fracos primeiros anos de audiência nos Estados Unidos. E resultou. Não só muitos sketches do Late Night se tornaram autênticas lendas da TV (um dos meus favoritos é Triumph, o cão insultuoso e comediante, por esta ordem), como o próprio Conan se tornou uma imagem de marca. Mesmo quem não gosta concerteza reconhece a gigantesca madeixa ruiva do apresentador, que se tornou um ícone, e a dança de marioneta sem fios com que brindava os espectadores ao início de todos os programas. Esta já não a faz com tanta regularidade no Tonight Show, numa clara tentativa de agradar às audiências mais velhas do antigo programa de Jay Leno.
A NBC começou há perto de 7 meses a fazer experiências absurdas, atacando o prime time americano com um novo programa de Jay Leno, e abdicando das séries de ficção. Ora a coisa (obviamente) não resultou face à concorrência, que manteve a ficção de CSI's e companhia no mesmo horário. E o que faz agora a NBC? Para tentar não perder a sua galinha dos ovos de ouro, pretende reinstalar Jay Leno no horário do Tonight Show (que este já apresentou e é agora de Conan O'Brien), obrigando a adiar este último para um horário das 00:05, adulterando o formato e horário de um programa lendário que nunca foi alterado desde os anos 1960, altura em que o Tonight Show foi apresentado pelo lendário Johnny Carson (o programa, esse, já existia desde os anos 1950).
Conan O'Brien não gostou, e já faz saber a sua opinião publicamente. Com toda esta telenovela a NBC está prestes a perder o americano-irlandês ruivo mais famoso da televisão, e a antagonizar Jay Leno face ao público que (ainda) vê a NBC.
Para bem deles, espero que encontrem uma solução para todo este imbróglio, mas pessoalmente acho que o mal está feito, e Conan vai mesmo sair.
Pela internet corre uma vaga de apoio a Conan O'Brien, do qual destaco a imagem que apresento aqui no Espigas, criada por Mike Mitchell, e que o autor encoraja a ser usada por blogs e sites do mundo inteiro.
Como se diz na internet cloud actualmente, I'M WITH COCO!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

E por falar em Lost, começam os teasers da última temporada desta magnífica série (para quem a segue religiosamente desde o primeiro episódio). Esta recriação da Última Ceia está... divinal! E dizem que contém várias dicas para o enredo final.

Como andava aborrecido e farto do sistema de ter de descarregar via torrent ou emule os episódios do Colbert Report, Daily Show ou Tonight Show with Conan O'Brien, decidi dar uma oportunidade aos conselhos que lera no blog do Nuno Markl há uns meses. Ou seja, gastei uns quantos euros e adquiri uma licença de um ano para usar os servidores da Witopia como proxy anónimo (através de vpn) e tentar enganar os sites americanos sobre a minha verdadeira localização. O meu alvo principal era o site Hulu, mas os senhores anteciparam-se a mim em alguns meses e decidiram fechar o tráfego que lhes chega de proxy's anónimos, mesmo que estes sejam americanos. Por isso, se esta era a vossa ideia em subscrever o serviço da Witopia, esqueçam.
Mas nem todos os sites têm uma política (cada vez mais) restritiva como o Hulu, e assim lá acabei por ver o meu esforço financeiro e mental compensado. Acedendo ao site oficial do Colbert Report, consegui o que já não tinha desde o início de 2009: um episódio inteirinho!


É claro que a coisa não é a mesma que antes. O facto de estarmos a desviar o tráfego para um proxy faz com que o streaming não seja tão rápido como era antes de nos fecharem as fronteiras, o que provoca algum buffering irritante, especialmente se estivermos a ver o episódio de ontem. Mas compensa. Ah pois compensa!
No entanto a minha maior surpresa viria do site da ABC, onde pude assistir a um episódio da nova temporada de Scrubs.


Vamos ver como se comporta este site quando começar a última temporada de Lost...

domingo, 13 de dezembro de 2009


Nestas alturas de Natal e fim de ano encontramos um infindável número de crónicas "anti-listas dos melhores do ano". Provavelmente serão tantas como as próprias listas. É um assunto muito subjectivo. Se por um lado é verdade que a maior parte dessas listas são autênticas marés de corrente muito forte à qual estamos presos por um consumismo desbragado, por outro (e agora escrevo por experiência pessoal) é nessas listas que por vezes descobrimos coisas que nos escaparam completamente ao longo do ano, por esta ou aquela razão, e com a qual nos identificamos ou desenvolvemos um gosto genuíno.
O ano passado aconteceu-me isso quando fui espreitar a lista da Rolling Stone e dei de caras com os MGMT, Vampire Weekend ou até TV On The Radio, que até então tinha pomposamente ignorado. Este ano vou fazer desses casos uma tradição, e já prometi a mim próprio navegar aqui e aqui com tempo e dedicação para ver se me escapou alguma coisa.
No cinema e TV é provável que não me apanhem tão desprevenido (um eufemismo para ignorância). Nesse caso é mais provável que me encontrem entre os votantes de algumas das listas, como esta ou esta. De qualquer forma, vou deixar brevemente aqui no blog uma lista pessoal de cinema e outra de séries televisivas para este ano de 2010. Só não o faço já porque é pouco honesto ignorar os estreantes de Dezembro e porque ainda falta "Avatar". Stay tuned.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Nos últimos dias vou aproveitando as frequentes repetições no canal MOV (exclusivo ZON) para rever episódios soltos de The Wire, aquela que é, para mim, a melhor série de sempre. Sim, de sempre. Mesmo. Desde que os meus pais me deixaram, ainda menino, ver séries televisivas. Desde o Verão Azul. Acima de Sopranos (provavelmente a terceira melhor) e Sete Palmos de Terra (sem dúvida a segunda). Mais intemporal que Twin Peaks (no top 10) ou A Balada de Hill Street (idem).

Tenho consciência que este "top" pode ferir a susceptibilidade de muita gente, mas tenham calma. Nem isto é uma coisa estática, pois há sempre séries de grande qualidade a sair (vide Dexter ou True Blood), como há tops bem piores (colocar um reality show como "Survivor" ao lado dos Sopranos faz-me comichão).
Mas isto vem ao caso para, após rever mais uma das cenas-chave da série, fazer aqui uma pequena homenagem a dois actores que tiveram em The Wire os seus trabalhos de toda uma vida.
Refiro-me em primeiro lugar a Michael K. Williams, que interpreta a minha personagem favorita, Omar Little. Omar é um pequeno gangster que, ao contrário da maioria do espectro social da sua "profissão", consegue sobreviver (quase) até ao fim das 5 temporadas de The Wire. Mas não é um gangster qualquer. É, acima de tudo, humano, e como todos nós tem os seus muitos defeitos, mas também inúmeras virtudes. Williams conseguiu retratá-lo tão bem que o transformou num daqueles "bonecos" que vamos (quem assistiu a The Wire do início ao fim) mantê-lo no nosso imaginário televisivo até morrer. Cinzento e nebuloso como poucos, Omar Little é um assassino que rouba traficantes, qual Robin Hood da urbe, de ar duro, cicatriz na cara, impiedoso, agressivo, sobrevivente no esquema selvagem da "rua" que a cidade de Baltimore apregoa nesta magnífica série (sendo a própria Baltimore também uma "personagem" fascinante, assunto que daria para um ensaio).
Mas Omar é também um homossexual assumido, que pretende vingar a morte do seu amante às mãos de criminosos a quem ele roubou vezes sem fim. É um homem que entende a noção de justiça, e consegue a espaços alinhar com os homens das esquadras de polícia, tal como se alia a quem já o tentou matar. É um estratega. Um jogador de xadrez em forma de rap. Mas não confiem nas minhas palavras. Fixem apenas que Omar é a personagem favorita de... Barack Obama. E se depois de assistirem a qualquer outro trabalho do actor Michael K. Williams não acharem que este Omar lhe deu pano para mangas, aconselho-vos a reverem o vosso barómetro artístico.

O outro senhor aqui homenageado é o actor britânico (leiam outra vez... britânico!) Dominic West. Não só a sua personagem, o detective Jimmy McNulty, goza dos mesmos privilégios de profundidade dramática e "áreas cinzentas" na sua humanidade, como West foi obrigado a assimilar durante 5 anos um sotaque americano do estado de Maryland. Quem vir Dominic West no filme "300", por exemplo, pode atestar bem das suas incríveis capacidades camaleónicas, tal é o contraste.
McNulty é um detective de coração aberto, sempre com um pé no alcoolismo, algo fanfarrão e mulherengo, pronto a ajudar os seus colegas e sempre remando contra tudo e todos no intuito de resolver casos e combater o crime de Baltimore.  O problema é que, no caminho, McNulty é capaz de "atropelar" algumas regras do manual (rígido) de procedimentos policiais, e desta forma deixar furibundos alguns colegas e superiores hierárquicos. E não estamos aqui a falar de polícia corrupto retratado de forma barroca e hiperbolizada à la "The Shield". Nada disso. O que se vê em "The Wire" não podia estar mais próximo da realidade, num retrato em que as suas personagens são más quando devem ser más, mas não se apercebem da sua maldade. Ou pensam que, por exemplo, em Portugal, os corruptos sabem sempre que estão a cometer corrupção? Pensar assim é ser ingénuo. É essa ambiguidade moral que transforma The Wire numa série fabulosa, e que mostra Jimmy Mcnulty como um polícia empenhado e esperto, mas também tóxico, obcecado, facilmente irritável se as coisas não se estiverem a processar à sua medida.
Faço, pois, uma prolongada vénia a estes dois senhores, que em conjunto com um elenco de altíssima qualidade conseguiu mostrar ao mundo o quão miserável e corrupta pode ser a sociedade americana num estado do litoral leste do país, a faixa de terreno dita "civilizada", a apenas 70 Km da capital Washington. "The Wire" é a vida, como ela é. Sem estilismos, metáforas, parábolas, hipérboles ou caricaturas. Aqui um crime não se resolve em duas horas, com um esfregar de um cotonete na boca do suspeito, que revela o seu DNA em minutos. Um caso é um caso é um caso. E dói. No polícia que patrulha a rua, no detective que tenta resolver o puzzle, no cidadão que testemunhou, no traficante que mata e vende droga, no político corrompido, no professor de mãos atadas face a um sistema de ensino cego, surdo e mudo, no jornalista amoral. "The Wire" é o mundo todo em 5 séries que prevalecerão por muitos anos. Amen.

Editado a 9 de Janeiro de 2010

segunda-feira, 23 de novembro de 2009


Se houvesse dúvidas sobre a qualidade de "Fringe", esta segunda temporada, emitida actualmente nos Estados Unidos, veio de certa forma dissipá-las. JJ Abrams apostou forte na sua produção, que no ano passado provocou forte impacto e expectativa no panorama de ficção televisiva americano.
O problema é que "Fringe" começou mal. Apesar do episódio piloto de grande orçamento muito vistoso, os argumentistas "descarrilaram" e criaram uma teia de enredos digna dos "X-Files" mais manhosos das últimas temporadas, ou seja pelos bons mas também pelos maus motivos.
Tal como acontece com "Flash Forward", o equilíbrio entre a história e os inúmeros enigmas e enredos de continuidade é altamente deficitário. O espectador agradece que lhe forneçam intrigas e mistérios, mas em doses "legíveis". "Fringe" baralhou as cartas de tal forma, que o acidente esteve prestes a acontecer, com audiências fracas e votações on-line abaixo das expectativas. No entanto, a equipa de Abrams soube dar a volta à questão, e pouco a pouco o argumento solidificou-se num fio narrativo ainda mais fantasioso que X-Files, onde o véu foi propositadamente levantado mais cedo que o previsto para não defraudar as audiências. E resultou. A "season finale" da temporada 1 valeu toda a paciência daqueles que ainda acreditaram num bom envesamento das coisas.
"Fringe" é actualmente a melhor série de ficção científica proveniente do espectro televisivo americano. Com "Battlestar Galactica" terminada e "V" a revelar-se um enorme flop, tem todas as condições para se tornar um culto de tanta longevidade como as aventuras de Mulder e Scully contra os ET's. Assim espero, porque quero saber se Leonard Nimoy irá aparecer mais vezes, como irá terminar a guerra entre os mundos paralelos, quais os segredos obscuros que Walter Bishop guarda (personagem brilhantemente interpretada por John Noble) e que raio são os observadores, aquela raça de seres carecas e vestidos como caixeiros-viajantes dos anos 60.

Editado a 30 de Dezembro de 2009

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Com 7 episódios já emitidos nos Estados Unidos, os quais já tive oportunidade de ver, creio conseguir alinhavar umas quantas frases sobre Flash Forward, a super produção que a cadeia ABC está a publicitar como o substituto de Lost (que, como se sabe, tem final agendado para a próxima temporada a começar em Fevereiro 2010 no mesmo canal).

Tal como em Lost, Flash Forward teve um episódio piloto de grande orçamento, com muitas explosões, acção a rodos, e um cataclismo que despoleta a trama da série: toda a população mundial sofre um blackout de um par de minutos, no qual são confrontados com as suas próprias vidas dentro de seis meses. A premissa é interessante, cheia de potencial para escrevinhar umas ideias de ficção com qualidade. Exemplo disso é o flash forward conjunto que muitas personagens simplesmente não tiveram, indicando a probabilidade de nessa data estarem mortas.
O elenco prometia, com Joseph Fiennes à cabeça (Shakespeare in Love, Enemy at The Gates), seguido de outros nomes também do cinema (John Cho, o novo Sulu de Star Trek ou Dominic Monaghan, um dos hobbits de Lord Of The Rings, que já pertenceu ao elenco de Lost) e algumas caras reincidentes do universo televisivo, como a voluptuosa Sonya Walger (excelente em The Mind of The Married Man, Tell Me You Love Me ou em Lost).
Mas a verdade é que desde o primeiro dia se nota alguma desilusão. Não só de minha parte, mas da comunidade em geral que acompanha estes fenómenos televisivos.
A história de Flash Forward tem sofrido mudanças e fios narrativos inconsistentes ou simplesmente ridículos. A ideia de montar uma teia de pistas tornou-se uma obsessão tão grande dos argumentistas, que em muitos momentos ficamos com tramas que ou não levam a lado nenhum ou são empurradas de forma extremamente básica. O episódio 5 é sintomático. Toda a equipa que investiga o caso (porquê tanta gente??) vai a Washington para apresentar o seu ponto de vista sobre o fenómeno ocorrido, e dessa forma continuar a recolher fundos para aprofundar os indícios recolhidos até então (alguns de forma patética e infundada). Deixamos de ter uma trama localizada (em LA), e assistimos a uma equipa confusa, de reacções adversas e pouco justificadas, que a espaços se assemelha a um grupo de alunos de escola secundária em excursão pela primeira vez à capital, acompanhados do seu professor inseguro (o chefe do departamento).
Mas como se isto não bastasse, há um problema bastante mais grave: Joseph Fiennes. O actor, irmão do grande (na minha opinião) Ralph Fiennes, mostra aqui que efectivamente lhe falta muitos genes para ser levado a sério. Não só não consegue aguentar o peso de ser o actor referência, como é "acossado" por uma maleita que lhe afecta a fala, produzindo um sotaque americano degradante para os seus contemporâneos britânicos. Uma voz em tudo falsa, que lhe tira qualquer credibilidade. Porque diabos não manteve o seu sotaque original?
John Cho, por seu lado, é outro erro de casting tremendo. Actor mais habituado a comédias estapafúrdias (os dois títulos "Harold and Kumar", por exemplo), conseguiu o lugar de Sulu pela sua etnia, e até conseguiu um bom registo, devidamente embebido num Star Trek de proporções gigantescas que facilmente o consegue transformar numa bonita peça decorativa, sem grandes esforços de representação. Mas nesta série pedia-se ao actor um maior élan, aspecto que demonstrou não possuir.
Vou continuar a ver a série, claro. Nunca se sabe como as coisas evoluem. Lembro-me que Fringe foi uma confusão do tamanho de Heroes nos primeiros episódios, mas depois lá conseguiu encarrilhar num registo curioso, mais parecido com o fulgor de J.J. Abrams. Mas para já, receio que isto venha a descambar numa daquelas séries em que ficamos sem saber os porquês, após um cancelamento precoce.

Editado a 20 de Novembro de 2009

Imagem "recortada" do site tv.com, sem autoria revelada na origem

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Estava aqui a navegar nos outros blogs que já mantive, e encontrei este post, que embora desactualizado, apresenta de forma bastante completa uma das personagens que mais respeito me transmite no actual panorama televisivo mundial:


A SIC Radical decidiu há muito deixar de transmitir o excelente "Daily Show" de Jon Stewart. O programa, misto de talk-show com notícias falsas e/ou trabalhadas com uma ironia mordaz, revolucionou o modo de ver a actualidade noticiosa americana. Segundo li há pouco tempo, o canal de Carnaxide já voltou a comprar novos episódios para breve [comprou-os e transmite-os actualmente não só na SIC-R como também na SIC-N]. Espero que sim (embora não me afecte especialmente, porque prefiro descarregar os programas mais recentes da net).
E já que o vão fazer, poderiam também dar uma espreitadela ao "Stephen Colbert Report", a produção que a Comedy Central transmite logo a seguir ao "Daily Show". Colbert já foi um dos elementos da equipa de Jon Stewart, mas o seu destaque foi tanto que o mérito de um programa só seu é indiscutível. Para quem não conhece, nada melhor que navegar pela internet e dar uma vista de olhos aos "estragos" que este senhor fez no recente baile anual dos correspondentes da Casa Branca em Washington. Os risos do presidente [em 2006] Bush duraram só até Colbert se referir às "situações encenadas" como a proclamação de vitória americana no Iraque, em cima de um porta-aviões, ou na mais recente visita populista e demagógica à cidade de Nova Orleães.
Podem ler o discurso de Colbert, em frente a todos aqueles jornalistas a que chamou de palhaços e "freaks", aqui. Tomo a liberdade de seleccionar alguns dos melhores momentos, para mais tarde recordar:
(...)
I believe democracy is our greatest export. At least until China figures out a way to stamp it out of plastic for three cents a unit.
(...)
I believe that everyone has the right to their own religion, be you Hindu, Jewish or Muslim. I believe there are infinite paths to accepting Jesus Christ as your personal savior.
(...)
I stand by this man [presidente Bush]. I stand by this man because he stands for things. Not only for things, he stands on things. Things like aircraft carriers and rubble and recently flooded city squares. And that sends a strong message: that no matter what happens to America, she will always rebound -- with the most powerfully staged photo ops in the world.
(...)
This president has a very forward-thinking energy policy. Why do you think he's down on the ranch cutting that brush all the time? He's trying to create an alternative energy source. By 2008 we will have a mesquite-powered car!
(...)
As excited as I am to be here with the president, I am appalled to be surrounded by the liberal media that is destroying America, with the exception of Fox News. Fox News gives you both sides of every story: the president's side, and the vice president's side.
(...)
Here's how it works: the president makes decisions. He's the decider. The press secretary announces those decisions, and you people of the press type those decisions down. Make, announce, type. Just put 'em through a spell check and go home. Get to know your family again. Make love to your wife. Write that novel you got kicking around in your head. You know, the one about the intrepid Washington reporter with the courage to stand up to the administration. You know - fiction!
(...)
Jesse Jackson is here, the Reverend. Haven't heard from the Reverend in a little while. I had him on the show. Very interesting and challenging interview. You can ask him anything, but he's going to say what he wants, at the pace that he wants. It's like boxing a glacier. Enjoy that metaphor, by the way, because your grandchildren will have no idea what a glacier is.
(...)