Já li "Catcher in The Rye" pelo menos cinco vezes, tanto em versão original como traduzida. É daqueles livros que me acompanham desde o princípio da minha idade adulta. Desde que, imberbe adolescente, me deixei levar pelos prazeres da beat generation. J.D. Salinger, não fazendo de forma alguma parte deste movimento, tem na minha perspectiva um lugar cativo de visitante.
"Catcher in The Rye" transpira inconformismo por todos os poros, numa perspectiva de ingénua rebelião infantil, é certo, mas de uma forma perigosamente viciante, como uma boa leitura de "On The Road" do Kerouac, com direito a visitas nocturnas pela Nova Iorque pré-beatnicks e respectiva fauna disfuncional.
A sua morte não nos deixa mais pobres, como se costuma dizer alarvemente. Salinger não escrevia nada há décadas e prezava o seu isolamento e privacidade com alguma dose de loucura e paranóia. A família decidiu (e bem) não promover sequer um serviço fúnebre, coisa que despertaria romarias de fãs e muita tinta, electrónica ou não, por esse mundo fora. O escritor vai desta forma manter o seu estilo de vida até à cova: um asceta do século XXI é por si só obra significativa para mostrar a gerações futuras.
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
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domingo, 1 de novembro de 2009

Ainda na sexta-feira regressava do trabalho a caminho de casa, ouvindo no carro, como todos os dias, a Radar FM. E com ela a voz mais cavernosa, gutural, confiante e calma de todo o espectro radiofónico (atrevo-me a dizer mundial).
António Sérgio nasceu com um dom. Aquele timbre de voz era raro, digno de um senhor "voz de bagaço". Transmitia ao ouvinte sensações de confiança e segurança imbatíveis. Foi através de António Sérgio que me inspirei nos meus anos adolescentes de rádio local em Castelo Branco. Foi com ele que descobri inúmeros discos, incontáveis bandas e estilos sonoros de todo o mundo (ainda o ano passado o António elegeu como um dos albuns do ano "Stay Positive", dos Hold Steady, que em Portugal passou despercebido e é para mim um dos albuns da década). António Sérgio era o John Peel português, mas que em nada ficava a dever a essa outra lenda da rádio também já falecida.
Acabo de ler a notícia da sua morte no Público, e sinto agora um vazio tremendo e uma tristeza profunda. Lamento, acima de tudo, nunca ter tido a oportunidade de conhecer o António Sérgio, e assim poder agradecer-lhe toda a educação que ele me proporcionou ao longo das últimas 3 décadas.
Se do alto do teu merecido pedestal no Além me consegues ler, António, o meu gigantesco bem-haja por seres quem eras e por tudo o que me ensinaste.
Fotografia virtualmente recortada da versão on-line do jornal Público. Autoria de Miguel Madeira.
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